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O mito da transparência total

Cuidado para não confundir abertura com ausência de filtro

Poucas ideias se tornaram tão sedutoras no mundo corporativo quanto a promessa da transparência total. Fala-se em líderes que “não escondem nada”, organizações que compartilham tudo e culturas onde a informação circula livremente como prova de maturidade. Porém, existe um outro lado da história pouco explorado.

O problema não está na transparência em si — que é saudável e necessária —, mas na crença de que quanto mais informação, melhor a liderança. Raciocínio que parte de uma premissa ingênua: a de que toda informação esclarece quando, na verdade, às vezes ela apenas sobrecarrega, confunde ou gera ansiedade.

É comum ver líderes que, em nome da abertura, compartilham análises preliminares, cenários ainda incertos ou preocupações estratégicas mal formuladas. A intenção é boa: evitar ruídos, ser honesto, aproximar as pessoas. O efeito, porém, costuma ser o oposto. Os liderados reagem às hipóteses como se fossem decisões, aos rumores como se fossem fatos e às frágeis reflexões como se fossem sinais de crise.

Um exemplo é o do líder que, buscando ser transparente em um momento difícil da empresa, divide com a equipe todas as possibilidades em discussão – cortes de orçamento, reestruturação de áreas e/ou mudança da estratégia. No entanto, o que é um processo de análise vira, para quem escuta, uma sucessão de ameaças. O clima se deteriora não por falta de informação e sim por excesso dela, fora de contexto.

Isso não significa que você deve ficar de boca calada, escondendo o que sabe. Significa reconhecer que liderar também é gerir o timing e o enquadramento do que é comunicado. E compartilhar tudo, o tempo todo, é sinal de imaturidade.

Há ainda uma outra dimensão: a transparência como descarga emocional do líder é um erro grave. Dividir angústias, incertezas e tensões pode parecer humano, mas não é papel da equipe absorver o peso que você carrega por ser gestor.

O filósofo coreano-alemão Byung-Chul Han (autor do ótimo “A sociedade do cansaço”), ao criticar a cultura contemporânea da exposição, argumenta que a transparência elevada a valor absoluto tem eliminado a mediação e o cuidado, elementos essenciais para relações saudáveis. Nas empresas, isso se traduz em comunicação sem filtro, onde a intenção de parecer autêntico substitui a obrigação de ser claro e útil.

Compartilhar muita informação não é um bom hábito porque liderar é, acima de tudo, garantir que as pessoas entendam o que realmente importa em meio ao mundaréu de coisas que poderiam ser transmitidas a elas.

Lembre-se: pessoas confiam menos em quem fala tudo e mais em quem comunica com responsabilidade e sustenta o que diz. Transparência não é volume, é direção e coerência. Como ensinou Renato Russo em Índios, tem gente que fala demais por não ter nada a dizer.

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Wellington Moreira

Palestrante e consultor empresarial especialista em Formação de Lideranças, Desenvolvimento Gerencial e Gestão Estratégica, também é professor universitário em cursos de pós-graduação. Mestre em Administração de Empresas, possui MBA em Gestão Estratégica de Pessoas e é autor dos livros “Como desenvolver líderes de verdade” (Ed. Ideias e Letras), “Líder tático” e “O gerente intermediário” (ambos Ed. Qualitymark).

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