
No imaginário coletivo, a LEGO sempre foi sinônimo de criatividade e sucesso silencioso. Uma marca dinamarquesa sólida, admirada e praticamente atemporal. Por isso soa quase contraditório lembrar que, no início dos anos 2000, a empresa esteve perigosamente próxima da falência por excesso de inovação.
No fim da década de 90, pressionada pela ascensão dos videogames e pela mudança no comportamento das crianças, a LEGO decidiu acelerar. Criou parques temáticos, investiu em roupas, relógios, séries, ampliou licenças, lançou produtos cada vez mais sofisticados e multiplicou o número de peças diferentes. Em poucos anos, o portfólio explodiu e a complexidade também.
Há um episódio emblemático desse período. Um dos kits exigia tantas peças específicas que o custo de produção superava o preço final do produto. A cadeia de suprimentos havia se tornado tão intrincada que a empresa já não tinha clareza sobre a própria eficiência operacional. Havia orgulho da criatividade, mas os números não fechavam e em 2003 a companhia registrou um prejuízo histórico.
A virada começou em 2004, quando Jørgen Vig Knudstorp assumiu como CEO — o primeiro executivo não pertencente à família fundadora. Jovem para os padrões da empresa, ele logo trouxe uma pergunta desconcertante: “Onde exatamente estamos criando valor e onde estamos apenas ocupando espaço?”
A resposta foi menos glamourosa do que os projetos paralelos sugeriam. O valor estava no sistema de construção (com encaixe preciso e lógica modular). Isto é, no tijolinho.
A partir dali, o executivo iniciou um movimento de simplificação. O número de peças diferentes foi reduzido drasticamente, houve descontinuidade de projetos e ativos acabaram vendidos. A empresa voltou a ouvir com profundidade seus consumidores mais fiéis – inclusive a comunidade adulta de fãs, que ajudou a orientar novos lançamentos mais alinhados à essência da marca.
Importante: a LEGO não abandonou a inovação. Ela continuou criando produtos, mas por meio de parcerias estratégicas e linhas que expandiram o universo narrativo dos produtos. A criatividade passou a operar dentro de uma arquitetura estratégica clara.
Knudstorp sintetizou essa mudança ao afirmar: “Foco não é dizer sim para uma ideia; é ter coragem de dizer não para centenas de boas ideias.” A frase parece simples, mas carrega uma das decisões mais difíceis da liderança: renunciar ao brilho das boas ideias para proteger a coerência do negócio.
Muitas organizações não fracassam por incompetência e sim por dispersão. Crescem em iniciativas, expandem frentes, acumulam projetos e, quando percebem, já não conseguem explicar com clareza onde realmente geram valor.
No fim das contas, a LEGO não se salvou por inventar algo novo. Salvou-se por redescobrir o que sempre soube fazer de um jeito extraordinário.





