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Intelectualmente brilhante, estrategicamente inofensivo

O risco invisível dos líderes que impressionam, mas não transformam

Existe um tipo de líder que impressiona pela capacidade de análise. Domina conceitos, articula ideias com precisão, organiza cenários complexos e sustenta raciocínios sofisticados. Em reuniões, costuma ser a referência intelectual da mesa. Ainda assim, quando se observa o efeito concreto de sua atuação, o impacto é mínimo.

Esse perfil aparece, por exemplo, naquele gestor que conduz reuniões longas, bem estruturadas, cheias de hipóteses e conexões inteligentes, mas que terminam sempre com encaminhamentos vagos. “Vamos amadurecer um pouco mais.” “Precisamos de novos dados.” “Voltamos a falar sobre isso no próximo comitê.” O problema é que no próximo comitê raramente acontece alguma coisa.

Há também o executivo que enxerga todos os riscos antes de qualquer decisão. Ele antecipa objeções, simula cenários, mapeia efeitos colaterais com precisão cirúrgica. O que não faz é escolher. Sua inteligência funciona como um radar impecável — mas o navio segue parado.

O que está em jogo aqui não é falta de preparo. É o uso da análise como zona de conforto, já que pensar protege e decidir expõe. Afinal, escolher um caminho implica perder outros, contrariar expectativas de algumas pessoas e ainda ter de lidar com consequências reais.

Esse tipo de liderança gera um efeito silencioso nos liderados. Com o tempo, as pessoas aprendem que a explicação é mais valorizada do que a entrega. Que errar tentando custa mais caro do que não decidir. Que parecer inteligente é mais seguro do que assumir responsabilidade. Aos poucos, instala-se uma cultura elegante, articulada e estrategicamente inofensiva.

“A maior parte da vida corporativa acontece na tensão entre pensar bem e agir a tempo” James March   

James March, um dos grandes pensadores da teoria organizacional, foi ainda mais direto ao afirmar que “a maior parte da vida corporativa acontece na tensão entre pensar bem e agir a tempo”. Quando essa balança pende demais para o pensamento, o tempo e a oportunidade se perdem.

Estratégia não é um exercício intelectual abstrato. Ela só existe quando se materializa em escolhas claras, prioridades assumidas e movimentos visíveis. Fora disso, é apenas um bom diagnóstico. E diagnósticos, por si só, não transformam empresas.

Os líderes que realmente movem organizações não são, necessariamente, os mais brilhantes da sala. São aqueles que conseguem transformar entendimento em direção e direção em ação. Que decidem mesmo sabendo que não têm todas as respostas, porque entendem que a ausência de decisão também é uma escolha — quase sempre a pior.

Talvez esteja na hora de rever o critério de admiração nas empresas. Menos fascínio por discursos sofisticados e mais valorização da coragem de decidir. As organizações raramente fracassam por falta de inteligência e sim quando a inteligência vira um álibi elegante para a inação.

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Wellington Moreira

Palestrante e consultor empresarial especialista em Formação de Lideranças, Desenvolvimento Gerencial e Gestão Estratégica, também é professor universitário em cursos de pós-graduação. Mestre em Administração de Empresas, possui MBA em Gestão Estratégica de Pessoas e é autor dos livros “Como desenvolver líderes de verdade” (Ed. Ideias e Letras), “Líder tático” e “O gerente intermediário” (ambos Ed. Qualitymark).

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