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O sussurro que todo líder precisa ouvir

Como evitar que o sucesso construa uma bolha ao redor de quem lidera.

Na Roma Antiga, durante os desfiles de triunfo, quando um general vitorioso era celebrado pelas multidões, havia um detalhe simbólico que passava quase despercebido. Enquanto a cidade aplaudia e exaltava o herói do momento, um escravo caminhava próximo a ele e, discretamente, repetia um lembrete simples: “Lembre-se de que você é mortal”.

Essa tradição, associada ao contexto do poder no Império Romano, carrega uma lição que atravessa séculos e se mostra extremamente atual quando pensamos em liderança: em meio à glória, precisamos preservar a lucidez.

Todo líder vive seus próprios triunfos. São as metas batidas, os projetos reconhecidos, as promoções, os elogios, a influência crescente dentro da organização. E assim como na Roma antiga, esses momentos são convidativos ao distanciamento da realidade.

O poder, quando não é acompanhado de autoconsciência, tende a criar uma bolha. O líder passa a ser menos confrontado, mais validado, mais ouvido e menos questionado. As pessoas filtram informações, suavizam críticas e evitam contrariar. Aos poucos, a liderança deixa de ser um exercício de accountability e começa a flertar com a ilusão de infalibilidade.

No dia a dia corporativo, o “memento mori” da liderança não precisa ser literal, mas precisa existir. Ele desponta na forma de feedbacks sinceros, de conselheiros que não se intimidam, de equipes que confiam o suficiente para discordar, e principalmente na capacidade do próprio líder de se lembrar continuamente de que sua autoridade não o torna imune ao erro.

Líderes que perdem a humildade tendem a se isolar. E o isolamento decisório é um dos maiores riscos estratégicos nas organizações. Quando ninguém mais se sente seguro para dizer “você pode estar equivocado”, o erro deixa de ser corrigido cedo e passa a se tornar estrutural.

Por outro lado, líderes que cultivam conscientemente esse “lembrete de mortalidade” demonstram maturidade. Eles escutam mais, perguntam mais, revisam suas certezas e entendem que liderança não diz respeito a ter todas as respostas.

Há também um aspecto humano profundo nessa analogia. Lembrar-se de que é “mortal”, no contexto da liderança, significa reconhecer limites, vulnerabilidades e a própria condição de aprendiz permanente. Significa não confundir cargo com grandeza, nem reconhecimento com invulnerabilidade.

No fundo, essa antiga tradição visa proteger os líderes. O reconhecimento pode ser passageiro, o cargo pode mudar, os contextos podem se transformar. O que sustenta uma liderança consistente ao longo do tempo é a capacidade de permanecer lúcido mesmo em meio aos aplausos.

Talvez todo líder precise, simbolicamente, desse lembrete recorrente: o sucesso não elimina a necessidade de ouvir, o poder não substitui a prudência e a posição não anula a condição humana. A liderança mais sólida não é a que se deixa levar pela aclamação, mas a que, mesmo sendo reconhecida, continua disposta a escutar os sussurros que a mantêm com os pés no chão.

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Wellington Moreira

Palestrante e consultor empresarial especialista em Formação de Lideranças, Desenvolvimento Gerencial e Gestão Estratégica, também é professor universitário em cursos de pós-graduação. Mestre em Administração de Empresas, possui MBA em Gestão Estratégica de Pessoas e é autor dos livros “Como desenvolver líderes de verdade” (Ed. Ideias e Letras), “Líder tático” e “O gerente intermediário” (ambos Ed. Qualitymark).

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