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Você nem sempre resiste à mudança e sim às perdas que vêm junto

Quando uma mudança é comunicada na empresa, talvez você já tenha vivido isso. A curiosidade aparece, mas dura pouco. Logo surge uma pergunta instintiva, quase automática: o que eu vou perder? Controle, domínio, previsibilidade e/ou reconhecimento?

Isso não é descaso nem má vontade. Diante do incerto, a nossa tendência é proteger o que já foi conquistado e adiar o engajamento com aquilo que ainda não oferece garantias. Ou seja, em vez de má vontade ou falta de compromisso, é apenas um comportamento humano.

Ronald Heifetz explica bem esse movimento ao afirmar que as pessoas não resistem à mudança em si — resistem às perdas que ela impõe. Toda transformação real cobra um preço. Você perde domínio, perde referências e, em alguns casos, até uma parte da identidade profissional que construiu ao longo do tempo. Quando essas perdas não encontram espaço para serem nomeadas e discutidas, o corpo reage entrando em modo de autopreservação.

Isso acontece até nas mudanças consideradas positivas. Pense em uma promoção. No início, vem a euforia e o entusiasmo. Mas, passado o impacto inicial, algo muda. Surge uma sensação estranha, um incômodo difícil de explicar, que se revela na pergunta: será que isso vai dar certo?

No fundo, o desconforto não está no novo cargo e sim no medo de não corresponder, de perder o domínio que sustentava sua confiança, de falhar justamente onde se espera sucesso. Muitas vezes, é aí que a autossabotagem entra em cena, como uma tentativa inconsciente de proteção.

Talvez por isso, quando processos mudam dentro da sua área, comportamentos comuns ganhem o rótulo de resistência. Afinal, você questiona, compara com o modelo anterior, demora um pouco mais para aderir. Apesar de o discurso oficial falar de ganhos futuros, você enxerga o custo imediato: menos controle, mais esforço e maior exposição ao erro.

O ganho prometido exige tempo, reaprendizado e adaptação até fazer sentido na prática. A perda não, ela vem antes. E o medo que aparece nesse intervalo é dos mais primitivos: o medo de perder valor, que se alimenta de cenários que ainda nem existem e ganha força justamente porque o novo ainda não foi compreendido.

Ainda assim, esse fenômeno costuma ser tratado como um problema técnico. “Precisamos melhorar o processo” ou “com um prazo maior a gente consegue”, mas nenhuma ferramenta de gestão diminui a sensação de sentir-se incapaz. E explicação racional alguma elimina o receio de perder valor justamente quando a competência que trouxe você até aqui já não oferece a mesma segurança.

No fim, talvez a pergunta mais honesta não seja por que as pessoas resistem ou se autossabotam. Talvez seja outra: o que acontece com alguém quando o novo chega antes que aquilo que dava sentido esteja pronto para ser deixado para trás?

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Gysele Rogo

Psicóloga e consultora empresarial nas áreas de Desenvolvimento Humano e Organizacional, atua também como professora universitária em cursos de pós-graduação. Doutora e Mestre em Ciências da Informação, é especialista em Gestão de Recursos Humanos e Marketing Interno, com formações complementares em Análise Transacional (AT), Coordenação de Dinâmicas de Grupo e Mentoring. É certificada pela Innermetrix em ferramentas de avaliação de perfil humano e diagnóstico empresarial.

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