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A cultura conta a história que o discurso esconde

Os verdadeiros valores de uma organização aparecem nas decisões que toma todos os dias

A cultura conta a história que o discurso escondeEm algumas empresas, é comum existir uma diferença entre o que ela diz ser e o que as pessoas experimentam por lá todos os dias. A primeira aparece nos discursos, nos relatórios de sustentabilidade, nos vídeos institucionais, nas campanhas de recrutamento e nos eventos corporativos. A segunda se revela nos corredores, nas reuniões, nas decisões difíceis, nos critérios de promoção e na maneira como os conflitos são enfrentados.

Por isso, sempre que o assunto é cultura organizacional, prefiro observar menos as narrativas e mais os comportamentos.

Toda empresa conta que coloca o cliente no centro das decisões, valoriza as pessoas, incentiva a inovação, respeita a diversidade e age com ética. E, a principio, não há nada de errado nisso, pois as companhias precisam de histórias que deem sentido à sua existência.

O problema começa quando a narrativa ocupa um espaço maior do que a realidade e a organização parece acreditar que repetir determinados valores é suficiente para incorporá-los ao cotidiano. Como se a boa comunicação fosse capaz de suprir a falta de prática.

A cultura possui uma característica que considero fascinante: ela funciona como um mecanismo permanente de verificação da verdade. Cedo ou tarde, ela revela aquilo que realmente importa para a empresa, independentemente do que esteja escrito no site, nas redes sociais ou nos corredores.

Basta observar quem é promovido, quais comportamentos são recompensados, quais erros são tolerados, quais conflitos vão para debaixo do tapete e, principalmente, quais atitudes recebem silêncio em vez de consequências.

Quando uma empresa afirma que as pessoas são seu maior patrimônio, mas trata o desenvolvimento como despesa, há um desalinhamento evidente. O mesmo acontece quando defende a inovação, mas reage com desconfiança a qualquer ideia que desafie o modelo vigente, ou ela proclama que a ética é inegociável, porém flexibiliza princípios para continuar batendo metas ou preservar executivos maquiavélicos.

É por isso que considero a cultura um fenômeno muito mais interessante do que a comunicação institucional. A comunicação expressa como a empresa gostaria de ser percebida; a cultura revela aquilo que ela efetivamente aceita, recompensa e perpetua.

Essa diferença tornou-se ainda mais evidente em um mundo no qual funcionários, clientes e parceiros compartilham suas experiências em tempo real e sem filtros. Hoje em dia, nenhuma organização é capaz de controlar integralmente a própria narrativa, por mais que algumas tentem.

Em resumo, a dica é: desconfie das organizações excessivamente preocupadas em contar boas histórias. Empresas verdadeiramente admiráveis raramente precisam convencer alguém de que são coerentes. Elas deixam que suas decisões façam esse trabalho.

Wellington Moreira

Palestrante e consultor empresarial especialista em Formação de Lideranças, Desenvolvimento Gerencial e Gestão Estratégica, também é professor universitário em cursos de pós-graduação. Mestre em Administração de Empresas, possui MBA em Gestão Estratégica de Pessoas e é autor dos livros “Como desenvolver líderes de verdade” (Ed. Ideias e Letras), “Líder tático” e “O gerente intermediário” (ambos Ed. Qualitymark).

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